Araguaia 40 anos: ideais da Guerrilha vivem e vicejam
Por Osvaldo Bertolino
A
passagem dos 40 anos do início dos combates no Araguaia, em 12 de
abril, será lembrada em diferentes pontos do Brasil. Em São Paulo haverá
um evento dia 14. O momento é de reflexão sobre o significado da
heróica resistência dos guerrilheiros que lutaram nas selvas amazônicas
em defesa da liberdade, da nação e dos direitos do povo brasileiro.
A Guerrilha do Araguaia representou um ponto de inflexão na história
recente do Brasil. A partir dela, houve uma viragem na correlação de
forças da conjuntura do regime golpista de 1964. Somados a outras ações
ousadas de resistência democrática, os combates no Sul do Estado do Pará
abriram caminho para que se formasse um movimento mais coeso e
consistente de enfrentamento à ditadura. Ao mesmo tempo em que a
repressão se manifestava de maneira bárbara, mesmo após o período mais
sangrento do regime, as manifestações contra o arbítrio cresciam. Os
assassinatos de Wladimir Herzog, Manoel Fiel Filho, Pedro Pomar, Ângelo
Arroyo e João Batista Franco Drummond ocorreram já em meio a protestos
destemidos contra o regime discricionário.
A crescente mobilização popular levou à decretação da Anistia em 1979, à
derrota da ditadura em 1985 e à Assembléia Nacional Constituinte de
1988. Após um período de revés, quando triunfou o neoliberalismo, as
forças políticas que expressam a resistência democrática abriram um novo
ciclo no país com a eleição de Luis Inácio Lula da Silva para a
Presidência da República — hoje continuado com a presidenta Dilma
Rousseff. As bandeiras que mobilizaram a luta contra a ditadura estão
nas mãos dos democratas e patriotas continuadores da luta dos que deram a
vida no combate ao regime de 1964. Por outros meios, defendem os mesmos
ideais, as mesmas aspirações, os mesmos princípios.
Quando se diz que o Araguaia vive e viceja, está se dizendo que as
idéias que mobilizaram aquele grupo de bravos brasileiros estão nas
raízes que formam o povo brasileiro. Em outros tempos, elas foram
defendidas por heróis como Tiradentes, Frei Caneca e Luis Carlos Prestes
— para citar alguns. Hoje elas se expressam em iniciativas como as que
lutam por outro ciclo civilizatório, que pavimente o caminho para a
superação do atual estágio da sociedade e a conquista de um regime
avançado, verdadeiramente democrático e assentado nos princípios da
justiça social. Em uma palavra: o socialismo.
Veios estratégicos
Esse fio histórico passou pelo Araguaia de forma marcante. Nas selvas
onde ocorreram os combates estava condensado um dos veios estratégicos
do país, que, no período republicano, passou pelos tenentes rebeldes que
promoveram dois levantes e uma marcha histórica — a Coluna Prestes — na
década de 1920 contra a República Velha. O acirramento das contradições
históricas, no conturbado período pós-Revolução de 1930, levou o país
ao regime de 1964 e ao seu antípoda: a resistência democrática, que
adquiriu, em determinados momentos, a forma de luta armada, não só no
Araguaia.
Esse período teve como impulsionador o Ato Institucional nº 5, o AI-5,
que levou a ditadura a radicalizar o uso da violência contra seus
opositores. Prisões, torturas e assassinatos se tornaram rotina. Para
enfrentar esse regime de terror, os comunistas assumiram a linha de
frente e saíram a campo para implantar núcleos de trabalho de massas que
seriam pontos de apoio à luta armada. Vingou a área da região da
Amazônia às margens do Rio Araguaia, situada no Sul do Pará e Norte do
atual Estado do Tocantins.
O fluxo de militantes para a região do Araguaia aumentou a partir do
início de 1969, devido ao agravamento da repressão política nas cidades.
A maioria dos guerrilheiros era composta de jovens, dentre eles várias
mulheres, que haviam participado ativamente do movimento estudantil. Ao
lado destes, se encontravam antigos e experientes dirigentes comunistas,
como João Amazonas, Maurício Grabois, Ângelo Arroyo e Elza Monnerat.
Nas matas do Araguaia, várias gerações de comunistas se encontraram.
Guerra popular
No início de 1972, já havia 69 guerrilheiros e guerrilheiras que
formaram três destacamentos e uma Comissão Militar, comandada por
Maurício Grabois. O objetivo era criar as condições para a deflagração
de uma “guerra popular prolongada” contra a ditadura. Para isto,
passaram a viver junto ao povo, na condição de simples camponeses ou de
pequenos comerciantes. Alguns eram médicos, professores e engenheiros.
Utilizaram o seu conhecimento para ajudar os moradores locais.
Lentamente, criaram vínculos e adquiriram a confiança dos camponeses.
Mas este trabalho foi abruptamente interrompido em 1972, com a entrada
de tropas militares na região e o início da repressão. Os guerrilheiros
enfrentaram três campanhas, que envolveram mais de dez mil soldados das
três Armas. Entre a primeira e a segunda campanha, as Forças
Guerrilheiras criaram a União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo
(ULDP) e apresentaram um programa de 27 pontos baseado nas necessidades
mais sentidas do povo da região.
Em 25 de dezembro de 1973, a Guerrilha sofreu seu mais duro golpe com a
queda da Comissão Militar e a prisão e morte de dezenas de militantes,
incluindo a de seu comandante, Maurício Grabois. Em abril de 1974,
transcorreram os derradeiros conflitos que culminaram com o fim da
Guerrilha. Todos os prisioneiros desta última campanha foram torturados e
assassinados. Cerca de 62 corpos permanecem desaparecidos.
Combate final
A repressão ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que organizou a
Guerrilha, já havia se iniciado desde o primeiro dia do golpe de 1964,
com o fechamento da sua imprensa e a perseguição a seus principais
líderes. Antes do início das ações armadas, chegaram a ser presos e
torturados Calil Chade, José Duarte, Lincoln Oest e Diógenes Arruda
Câmara, entre outros. Em 1971, no Rio de Janeiro, foi brutalmente
assassinado o jovem Joel Vasconcelos.
A eclosão da luta armada no Araguaia levou a um aumento, sem
precedentes, das perseguições aos comunistas. Entre o final de 1972 e o
início de 1973, foram presos, torturados e assassinados quatro
dirigentes nacionais: Carlos Danielli, Lincoln Oest, Luís Guilhardini e
Lincoln Bicalho Roque. O Partido foi alvo, em vários Estados, de uma
verdadeira caçada que provocou centenas de prisões e o assassinato de
quadros valiosos. O objetivo da ditadura era isolar o Araguaia, impedir
que a resistência recebesse apoio a partir das cidades. Era o início de
uma operação cujo objetivo final era eliminar a direção do Partido que
promovia a Guerrilha.
A Guerrilha do Araguaia, somada a outras ações democráticas, foi
fundamental para a derrubada do regime dos generais golpistas. As forças
militares mobilizadas para o combate final foram gigantescas. A reação
avaliou a dimensão do movimento guerrilheiro e chegou à conclusão de que
ele era resultado de um planejamento estratégico do PCdoB. Houve, no
final das contas, um choque entre duas concepções para o país — uma
mobilizou um ideal democrático e outra uma gigantesca máquina de guerra
fascista. A história mostrou que o ideal democrático estava com a razão.
fonte:http://grabois.org.br/portal/noticia.php?id_sessao=7&id_noticia=8469